Blog do Santinha

agosto 1, 2006

Crônica de uma tragédia futura

Filed under: Uncategorized — blogdosantinha @ 6:24 pm

santa-x-corinthians-010.jpg   A torcida tricolor tocada como gado para o matadouro

A fila começou a ser formada uma hora antes da partida começar. Uma fila extensa, do portão de entrada para as arquibancadas até a avenida Beberibe, milhares de pessoas sob o sol nordestino.

Passaram-se vinte minutos e a fila não andou, todos estavam com sede e calor, muitas crianças no colo dos pais choramingavam, fermentando a impaciência.

Cientes de que a Polícia e os seguranças do clube não têm qualquer compromisso com seus direitos, centenas torcedores começaram a se acotovelar junto ao ponto de entrada.

Poucos minutos depois já não havia mais fila, e sim uma compacta massa humana, impaciente, irritada e desrespeitada querendo entrar no local do espetáculo para o qual pagaram o equivalente a nove litros de leite.

Tocados como gado pela violenta e omissa PM, os torcedores precisaram de habilidade para não se machucar nas enormes “borboletas”, semelhantes às antigas catracas de ônibus, colocadas entre o portão e as catracas eletrônicas. As pontas de ferro das “borboletas” não possuem proteção, são pontiagudas, um perigo a mais para quem vinha correndo, tentando entrar no estádio. Como acontece em todos os jogos, alguns se machucaram. Crianças, se feriram, choraram, e voltaram para casa apavoradas.

Vencido esse obstáculo, mais sufoco provocado pela incompetência e irresponsabilidade dos dirigentes do Santa Cruz Futebol Clube: a multidão se espremeu para passar pelas catracas eletrônicas. Colocar o bilhete em posição correta na estreita fenda, sendo empurrado por dezenas de pessoas, é uma operação complicada, leva alguns segundos, o que retardou a entrada e aumentou a aglomeração.

De repente, a tragédia: um corre-corre, um grito de pega-ladrão, um atrito entre um policial e um cidadão comum. Não se sabe ao certo o que deu início ao tumulto, mas se conhecem seus resultados: pessoas morreram pisoteadas, esmagadas entre as catracas e a massa humana, muitos se machucaram, cortes profundos, pernas e braços quebrados. Sangue e dor na única entrada de acesso às arquibancadas do estádio José do Rego Maciel, numa tarde ensolarada de domingo.

*****

Com exceção do trecho em negrito, o relato acima corresponde integralmente à verdade. É exatamente isso o que acontece no Arruda antes de qualquer partida com público acima de 20 mil torcedores. Não é uma exceção, não se trata de fatos isolados. É regra, é rotina.

Domingo foi assim, mas não houve gente pisoteada, ninguém morreu. Ainda. O palco para a tragédia, porém, está pronto.

É incompreensível como se promovem jogos de futebol há mais de três décadas no mesmo local e não se é capaz de organizar o fluxo de entrada nas arquibancadas (assim como nas gerais e até mesmo nas sociais) sem desrespeito os torcedores, já extorquidos no instante da compra dos ingressos.

É absurdo assegurar apenas uma entrada para as arquibancadas, ou seja, um portão para quase 25 mil pessoas.

Como já disse acima, o empurra-empurra acontece, impreterivelmente, em todas as partidas com público acima da média. Mas quem passou por tudo isso no domingo e, no dia seguinte, lê jornais, assiste ao noticiário esportivo na TV ou escuta resenhas nas rádios, tem a sensação que nada aconteceu. Foi obra da imaginação.

Adaptados à mediocridade do jornalismo feito apenas de declarações, os repórteres e editores dos jornais ignoram (ou fingem ignorar, apoiados na alegação da falta de espaço e de papel) o que acontece nos bastidores do espetáculo. Às emissoras de TV não convêm exibir imagens “sujas” ou “feias” do show, pois para a TV, a torcida é um cenário.

E os radialistas? Ah, os radialistas.. quantas vezes eles não usaram seus microfones para recomendar aos torcedores se afastar da política do clube ou se contentar apenas em torcer, jamais em protestar? Esses senhores apenas cumprem a função de amplificar a opinião dos responsáveis diretos pela situação e se limitam a culpar os torcedores por entrar no estádio em cima da hoa ou pedir resignação, “pois em todos os lugares isso acontece”.

Mentira. As vítimas não são culpadas. Quem conhece o Arruda sabe o que é suportar o calor das arquibancadas às 14h30min, 15h. Entrar antes, significa gastar mais dinheiro com água, cerveja ou refrigerante, vendidos a preços altíssimos por bares controlados pela família do presidente do clube. Além disso, é possível citar, sem muito esforço de memória, vários exemplos de estádio com inúmeros portões de acesso, abertos simultaneamente até mesmo em jogos sem grande público: Machadão (Natal), Batistão (Aracaju), Pacaembu (São Paulo), Morumbi (São Paulo), Brinco de Ouro (Campinas) e Serra Dourada (Goiânia).

Culpados existem. Existem responsáveis pela tragédia anunciada. Serão os cartolas tricolores? Os dirigentes da Federação Pernambucana de Futebol? A Polícia Militar? Se, um dia, os promotores e procuradores do Ministério Público levantarem das suas poltronas, saírem do ar-condicionado dos seus gabinetes e demonstrarem algum interesse pelo que acontece com os torcedores do Santa Cruz, talvez seja possível conhecer os nomes e caras dos culpados.

Ou vai ser preciso morrer gente?

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